Religiosidade e política no Brasil

A convivência religiosa e a militância política podem e devem coexistir no quadro desta realidade sociocultural

Por Flavio Goldberg 25/10/2022 - 16:26 hs

Historicamente, na formação da nação brasileira, a religião, a partir da colonização portuguesa, se torna o elemento principal da conversão dos indígenas ao catolicismo.

A figura de Anchieta neste aspecto é o ícone deste processo, muitas vezes instrumentalizado de forma, inclusive, agressiva, o que se repete, posteriormente, por exemplo com os negros trazidos escravos.

Num salto qualitativo e quantitativo em que, na urbanização, a igreja católica se estabelece, junto ao quartel e à polícia, no centro da vida social da comunidade, o poder político econômico se enraíza em todo o país, muitas vezes disputando com o Estado o poder de fato e o de Direito, através de partidos como o então PDC (Partido Democrata Cristão), de força extraordinária na constelação ideológica dos embates e conflitos que vão se desenrolando pelos períodos sucessivos dos regimes imperantes.

Um organismo que nesta realidade teve papel relevante era a chamada Liga Eleitoral Católica que avaliava com seu apoio candidatos comprometidos com os princípios da Igreja e repudiava candidatos adversários, principalmente, de outras religiões ou ateus.

De algumas décadas para cá, esta configuração vem se alterando, drasticamente, com o crescimento da importância do movimento evangélico no Brasil que universaliza desde camadas intelectuais até as faixas mais pobres da população um sentimento missionário avassalador.

Tudo isto desemboca na presente eleição tanto para a presidência da República como para o Legislativo, se ampliando de forma aberta ao Judiciário dados os temas em disputa como, por exemplo, o aborto, casamento homossexual, liberação de drogas.

Se num determinado instante a chamada “Teologia da Libertação”, braço esquerdista da Igreja, influenciou os setores pobres da sociedade brasileira, os chamados, às vezes pejorativamente, às vezes, elogiosamente, “bíblias” evangélicos, hoje predominam com suas políticas e ação missionária de evangelização os territórios que ocupam tanto as periferias das metrópoles quanto as próprias universidades.

Infelizmente, este exercício do direito de proselitismo e conversão que os evangélicos, com entusiasmo, vão colorindo o mapeamento político e eleitoral brasileiro, encontra preconceitos e até perseguições que ferem o Direito Constitucional da liberdade religiosa.

Entender que o conservadorismo precisa ser respeitado como opção para a prática da cidadania só poderá fortalecer o Estado Democrático de Direito.

A convivência religiosa e a militância política podem e devem coexistir no quadro desta realidade sociocultural.